Portal da Fraternidade Maçônica

Oh, Quão bom e Quão suave é que os Irmãos vivam em união! … (Salmo 133)

O RITO ADONHIRAMITA: ORIGEM E HISTÓRIA

O ADONHIRAMITA OU ADONIRAMITA? QUEM É O SEU CRIADOR: TSCHOUDY OU SAINT-VICTOR? ADONHIRAM É O MESMO HIRAM DA LENDA DO 3º GRAU? (1ª PARTE)

“(…) O Rito relaciona seus emblemas com a construção do Templo de Salomão, mas cultua a memória de Adoniram, como tendo sido o seu arquiteto e a vítima da perfídia dos três maus companheiros. Outros maçons, não aceitam, porém, esta versão, mas atribuem-na a Hiram Abif, e daí se denominarem Hiramitas. Entretanto, é idêntica a doutrina de ambos, tanto nos altos graus, como nos simbólicos. Por sua vez a Bíblia não confirma nenhuma destas versões, pois ali se relata que Adoniram foi um superintendente de trabalhadores forçados de Davi e de Salomão, e Hiram Abif foi um hábil decorador, sob cuja direção se fizeram a decoração interna do templo e os seus utensílios de metal, nada mencionando na Bíblia sobre sua morte, donde se conclui ser ela apenas simbólica. (Excerto do verbete “Rito Adoniramita”, retirado do “Vade-Mécum Maçônico”, de autoria do Irmão João Ivo Girardi)

INTRODUÇÃO
Pelo conteúdo do excerto utilizado logo acima, dá para perceber, parte exposto, parte nas entrelinhas, essa questão que envolve uma variação, digamos assim, da lenda do Terceiro Grau, e que está na gênese do Rito Adoniramita. E há outras questões mais, além dessa, e que, ao contrário do que alguém possa estar pensando, serão abordadas, com o intuito maior de conhecermos o Rito Adoniramita, suas origens e suas particularidades.
Embora não seja um dos ritos mais difundidos e praticados no resto do mundo, e no transcorrer deste trabalho serão apresentadas algumas razões comprovando essa realidade, no Brasil, e principalmente nos últimos tempos, o Rito Adoniramita vem crescendo bastante. Durante as pesquisas, deparei-me com a informação de que, na verdade, somente no Brasil este Rito ainda existe. (Cortez, pág. 63, 2010) De antemão, podemos dizer que, em primeiro lugar, o Rito é de uma grande beleza e profundidade, e pode ser considerado, do ponto de vista filosófico e metafísico, como de um deísmo atenuado, mas, possuindo as preces e as invocações tão características dos ritos teístas. Para uns, é um rito bastante místico, para outros é o mais espiritualizado.
Como já foi mencionado, com o intuito de conhecermos melhor as suas origens, e quem foi o seu verdadeiro fundador, aliás, essa questão é urgente também, pois, dois nomes são citados aqui, e é muito comum no material bibliográfico que porventura utilizemos em pesquisas haver certa preponderância para o Barão de Tschoudy, quando grande parte dos pesquisadores renomados, apontam para Saint-Victor. Então, outra grande questão para tentarmos, com base no que os especialistas estudam e opinam, chegar à versão melhor fundamentada.
De início, devo confessar, percebi que não era uma história linear, pelo contrário, era uma história onde havia lacunas, informações desencontradas, várias versões, enfim, e onde muitas peças não se encaixavam. Constatação que não é novidade, eis que muitos Irmãos ao falarem sobre o Rito começam dizendo sobre incongruências… Prevaleceu o desafio, a vontade de pesquisar, de superar as dúvidas que se apresentaram, e que pensei , podem ser a de muitos outros Irmãos, tanto que, foi para melhor elucidar essas questões, aprender ao mesmo tempo, e poder repassá-las em suas versões mais condizentes, melhor aceitas, apoiado sempre em excertos e opiniões dos autores que pelos seus currículos maçônicos e credibilidade, que o presente trabalho foi gestado. Não existe o propósito de ser definitivo aqui, mas, ter captado as melhores e mais coerentes opiniões, as que estejam ou estiveram o mais próximo daquilo que chamamos de veracidade.


QUAL A GRAFIA CORRETA: ADONHIRAMITA OU ADONIRAMITA?
Com relação à pergunta acima, tomemos conhecimento das opiniões de dois renomados pesquisadores maçônicos brasileiros:
Irm.’. Joaquim da Silva Pires, pág. 40, 1996:
“Quanto à denominação oficial ‘Rito Adonhiramita’(com um ‘h’ intermediário), se não quisermos dizer que se trata de um galicismo, diremos, apenas e respeitosamente, que estamos diante de um adjetivo mantenedor de fidelidade a sua origem francesa.)
Irm.’. José Castellani, pág. 159, 2001:
“Na apresentação da edição francesa do ’Recueil Précieux’, esclarece-se que, para o autor Guillemain de Saint-victor, Adonhiram era um patrimônio de Hiram, composto, portanto, dos termos Adon e Hiram (Adon-Hiram), e não o preposto às corvéias Adonhiram. No idioma português, a letra ‘h’ inicial da segunda palavra de termos compostos é mantida quando há hífen. O hífen serve para ligar elementos de palavras compostas que mantém sua própria acentuação, ou seja, sua independência fonética, quando o conjunto constitui uma unidade semântica, mesmo que os seus elementos percam a identificação, desde que considerados isoladamente; serve, também, para a formação de palavras, a partir da aglutinação dos prefixos com outros elementos(exemplo: anti, extra, intra).
Em outros casos de palavras compostas, ou com outros prefixos (como, por exemplo, o prefixo ‘in’), o ‘h’ da segunda palavra desaparece. Exemplos: inabitável, desarmonia, (…) lobisomem, desumano, (…), etc.
Como o termo composto ‘adoniramita’ é escrito sem hífen, ele perde, portanto, segundo as regras gramáticas, o ‘h’. Para manter a letra, como pretendem alguns, só se a grafia fosse ‘adonhiramita’, com hífen.
Isso, salvo melhor juízo, pois não é minha intenção trasnformar uma simples questão gramatical num ‘casus belli’.”


COMENTÁRIOS:
Evidentemente, os Irmãos conseguiram ser bastante convincentes em suas explicações, mas, como os Maçons, e não generalizando aqui, não são grandes leitores, a grafia mais adequada, talvez, não seja a que é mais usada.

HISTÓRIA DO RITO ADONIRAMITA
Na sequência farei uma síntese da história do Rito, e num primeiro momento usando das informações presentes no ótimo trabalho publicado na revista “O PRUMO”, com ênfase para as datas históricas ali contidas. O trabalho se intitula “O Rito Adonhiramita e sua História” e é da autoria do Irmão Feliciano (Edson Carlos Ortiga). O Rito Adoniramita nasceu na França. Alguns estudiosos acreditam que lá pelo ano de 1744, ainda que de forma incipiente, ele teria surgido. Isso se deve, em função da edição do trabalho de Louis Travenol (que se utilizou do pseudônimo Leonard Gabanon) intitulado “Cathécisme des Francs Maçons ou le Secret des Franc Maçons”, e aqui, o catecismo, é o equivalente aos rituais utilizados hoje em dia. Esse trabalho foi reeditado em 1747, sendo que já aparecia o nome de Adonhiram como personagem central da lenda, substituindo Hiram que era o de conhecimento geral.
No ano citado, 1744, o rito propriamente dito, ainda não estava organizado, mas, com a publicação do Catecismo citado logo acima, e por trazer nele o nome de Adhoniram, os seus seguidores passaram a ser conhecidos como “Maçons Adonhiramitas” e aos que permaneceram fiéis ao nome de Hiram, “Maçons Hiramitas”.
O Irmão Feliciano, foi muito feliz em dizer que “é claro que esta modificação produz debates sobre a possibilidade ou não de os Maçons Adonhiramitas se tornarem irregulares pela alteração de um dos Landmarques…”. Bem, sobre isso, nos concentraremos mais adiante, e com certeza, colhendo da impressão de outros Irmãos estudiosos.
Em 1758, a Maçonaria da França, através do seu Conselho dos Imperadores do Ocidente e Oriente, dá curso a uma grande reforma ritualística.
Um dos resultados dessa reforma é que nasceria então, um Rito organizado e bem estruturado, que seguia o Catecismo dos Franco-Maçons, ainda que, nem todos ainda sejam do consenso que aí se dá a criação do Ito, como veremos mais adiante.
Aliás, o Irmão Feliciano, registra e comenta: “Não existem razões suficientes que nos façam acreditar ou aceitar que nosso Rito tenha sido criado em 1744 por Luiz Travenol, hipótese esta que não passou pelos historiadores que levantaram sua história. É aceita como verdade que suas bases estão no trabalho intitulado de ‘RECUEIL PRÉCIEUX DE LA MAÇONNERIE ADONHIRAMITE’, surgido através da reforma ritualística de 1758.
Há quem atribua o ano da reforma como o ano da elaboração da Coleção, estabelecendo assim 1758 como o ano da criação do Rito. Não podemos admitir essa hipótese, pois, em 1780 foi republicado o ‘Catecismo’ de Travenol, tal como era nas edições de 1744 e 1747, fato que não teria sentido se a ‘COLEÇÃO PRECIOSA’ já tivesse sido publicada. Veio, isto sim, provar que se houve espaço para a publicação do Catecismo, é que a Coleção Preciosa não havia sido publicada em 1758 e nem nos anos subseqüentes (pode-se admitir, no máximo, que já estivesse elaborada mas não divulgada).
O que atualmente é mais aceitável é que a Coleção Preciosa tenha sido concluída e mandado publicar em 1781 (sem precisar quanto tempo levou sua elaboração e só publicada em 1782) sua primeira parte e em 1785 tenha sido publicada a 2ª parte, ficando assim este Rito completo. A data de 1781, ano da conclusão da elaboração da primeira parte, por sua coerência histórica e por possuir elementos comprobatórios, o SUBLIME GRANDE CAPÍTULO ADONHIRAMITA DE SANTA CATARINA adota com a ‘data oficial’ da criação do Rito, que teve sua conclusão em 1785.
E como chegamos a esta posição?
Porque em 1787 houve uma reedição que alcem de constar ser uma nova edição, ilustra de figuras, revisada e aumentada de várias canções etc., nesta mesma edição o autor fez um comentário sobre sua edição de 1781, portanto, ela existiu.”
Por ser a edição mais completa e muito bem elaborada passou a ser considerada a “Bíblia dos Adoniramitas”.
Outrossim, a data de 1781, por possuir maior sustentação documental, é tida como o ano da criação do Rito Adoniramita.


O BARÃO DE TSCHOUDY OU SAINT-VICTOR:
QUEM É O VERDADEIRO FUNDADOR DO RITO ADONIRAMITA?
Para adentrarmos nessa questão poloêmica, vejamos primeiramente a biografia de Tschoudy. O “Vade-Mécum Maçônico” do Irmão João Ivo Girardi, reproduz a biografia que o Irmão Assis Carvalho publicou no seu livro “Companheiro Maçom”, sendo essa a que veremos em primeira instância:
TSCHOUDY
“O Irm.’. Théodore (Barão de Tschoudy) nasceu em 1720 e morreu em 1769. Entre nós brasileiros, especialmente entre os Maçons ligados ao Rito Adonhiramita, o Irm.’. Tschoudy tornou-se muito conhecido, erroneamente. É imputada a ele a fundação do rito Adonhiramita, mas, só pelo ano de sua morte, já se pode verificar que isso não é verdade. O Rito Adonhiramita só veio a luz em 1787 quase 20 anos após a morte de sue pretenso autor.
Sua obra capital foi ‘L’Etoile Flamboyante (A Estrela Flamejante), publicada em 1766. Muitos IIrm.’. laboram em erro julgando que o Hermetismo estabelecido no Rito Escocês é herança advinda da Maçonaria Operativa. Na verdade mesmo, nenhuma herança dos Operativos, travestidos de Ocultismos, Hermetismos, Alquimias, chegou até nós. O que realmente aconteceu foi que Maçons da envergadura de um Irmão Tschoudy, na segunda metade do Século XVIII, muito sorrateiramente, introduziram suas convicções, religiosas e filosóficas, no seio da Maçonaria.
Muitos dos Altos Graus do Rito Escocês são de autoria do Irm.’. Tschoudy. Entre os Graus dos Eleitos, o Cavaleiro da Águia Negra e mais alguns outros que não há razão para comentá-los aqui. O Irm.’. Ragon imputou ao Irm.’. Elias Ashmole a Compilação dos Três Rituais: Aprendiz, Companheiro e Mestre, quando só havia Aprendiz; também imputou ao Irm.’. Tschoudy a criação do Rito Adonhiramita, quando o Rito foi criado 20 anos após a morte de sue pretenso autor. O Irm.’. Ragon, com suas leviandades, causou diversos danos à verdadeira história da Maçonaria. Pois, com esse ato irresponsável, ele prejudicou, e muito, o verdadeiro autor do Rito Adonhiramita que é Luiz Guillaume de Saint-Victor. Até hoje, entre nós, o Irm.’. Luiz Guillaume de Saint-Victorr é um cidadão completamente desconhecido pelos próprios Adonhiramitas.
Atribuir a um morto famoso a autoria de um Rito já é coisa comum em Maçonaria. O próprio Rito Escocês é atribuído ao Irm.’. Frederico, o Grande, da Prússia, quando ele já estava morto e, com o agravante de que detestava os chamados Altos Graus. Mas, como ele não podia voltar e negar essa paternidade, ela sobreviveu e ainda sobrevive para aqueles que não são muito chegados aos estudos maçônicos. A verdade, todavia, detesta e escuridão e um dia vem à luz.”
Vejamos este outro extrato provindo de um trabalho intitulado “O Rito Adonhiramita” cuja autoria pertence a vários Irmãos, e que foi publicado na revista “A Trolha”:
“É interessante mencionar a abordagem sobre a origem do Rito Adonhiramita feita por José A. Nunes. De acordo com este autor, a grande maioria das versões que atribuem a autoria do Rito Adonhiramita ao Barão de Tschoudy é especulação sem provas documentais. Vários estudiosos e pesquisadores Maçons brasileiros, de renomada credibilidade, tais como José Castellani, Nicola Aslan, Xico Trolha, J. Daniel e outros, já demonstraram a verdadeira história da origem do Rito Adonhiramita. Dessa forma, são acrescentados dados documentados de conceituados estudiosos e pesquisadores de assuntos da Maçonaria Universal, provando definitiva e cabalmente que o criador do Rito Adonhiramita foi Louis Guillemain de Saint-Victor.”
O Irmão Fuad Sayar diz que vários estudiosos brasileiros de renomada credibilidade também são da opinião de que o verdadeiro criador é Louis Guillemain de Saint-Victor, mas, que pelo fato de serem brasileiros não tem muito valor para alguns e publicou um trabalho onde acrescentou a opinião de vários autores estrangeiros sobre a questão. Vejamos a de Alec Mellor, que consta em seu livro “Dictionnarie de Franc-Maçons et de la Franc-Maçonnerie” , e que o Irmão Fuad repassou:
“As Escrituras falam de Adonhiram somente como encarregado das corvéias quando da construção do Templo pelo Rei Salomão, entretanto em 1744, Louis Travenol publicou sob o nome de Léonard Gabanon o seu Cathecisme de Francs Maçons ou Le secret des Franc Maçons, onde confundia Adonhiram com Hiram Abiff. Como Adon, em hebraico significa Senhor, essa palavra apareceu como prefixo de honra. Os ritualistas dividiram-se. Para uns, Adonhiram e Hiram eram o mesmo personagem. Outros sustentavam a teoria dualista. Mas divergiam quanto aos papéis respectivos de Adonhiram e Hiram na construção do Templo, uns sustentando que Adonhiram não fora senão um subalterno enquanto outros nele viam o verdadeiro herói da lenda do 3º Grau. Foi assim que nasceu uma Franco Maçonaria denominada Adonhiramita, oposta, pelos seus teóricos, a dos hiramitas. Ela nos é conhecida pelo Recueil Précieux de la Maçonnerie Adonhiramite, publicada em 1781, por Louis Guillemain de Saint Victor, e abrange os quatro primeiro graus. Em seus livro Orthodoxie Maçonnique, Jean Marie Ragon, atribuiu ao Barão de Tschoudy a criação da Franco Maçonaria Adonhiramita. É um erro total.”


COMENTÁRIOS:
Sem sombra de dúvida, essa é uma questão que ainda gera muitas discussões. E se já foi devidamente comprovado, aceito pelos estudiosos, particularmente, não entendo porque livros de autores mais antigos, mas, renomados, continuam sendo reeditados com esse tipo de erro, ou seja, não caberia uma revisão ou uma nota de rodapé, pois, quantos ainda os lerão e repassarão a informação errada, ou o que poderá ser pior, ensinarão errado, sendo que, isso é um problema que não está afeto somente a esse assunto, mas, a dezenas de outros, sendo muito freqüente no que tange à bibliografia maçônica, fruto, talvez da simples cópia, cópia da cópia, sem critérios, sem outras leituras. Já não chega a Internet que propaga inúmeros trabalhos, onde seus autores não fazem constar as fontes, ou simplesmente assumem trabalhos como se fossem seus, caracterizando o plágio, como bem se manifestou recentemente sobre o assunto o Irmão Kennyo Ismail.
Prosseguindo com essa questão, vejamos que alguns dados que constam nas obras de alguns autores, não resistem a uma análise mais profunda. O Irmão Joaquim Gervásio de Figueiredo, no seu “Dicionário de Maçonaria”, tem as seguintes passagens, e que extraio para poder exemplificar melhor. No verbete “TSCHOUDY, N., Barão de (1730-1769)”, além da data de nascimento e morte temos: ”(…) Posteriormente formulou um novo Rito de 13 graus, ao qual denominou Maçonaria Adoniramita, formada por graus bíblico-salomônicos e templários, e na qual as lendas da construção do Templo e do assassinato de Hiram Abiff ou Adoniram são interpoladas com as dos Templários e a morte de seu Grão-Mestre Jacques de Molay.”
Já, no mesmo livro, no verbete “RITO ADONHIRAMITA”, o qual, poderemos apreciar na íntegra, logo abaixo, diz: “Criado em 1776 ou 1787 pelo barão de Tschoudy…”, ou seja, se ele morreu em 1769, como pôde criar o Rito em 1776 ou 1787?
E para finalizarmos, digamos assim, a questão, vejamos algumas passagens do que registrou um dos nossos Irmãos e estudiosos mais conceituados que é o Irmão Jopaquim da Silva Pires, em seu livro “Rituais Maçônicos Brasileiros”:
“No estudo referente à origem do Rito Adonhiramita, encontramos sempre os nomes do Irm.’. Barão Théodore Henry de Tschoudy e do Irm.’. Louis Guillemain de Saint-Victor. Aliás, suas identidades chegaram a ser confundidas, como se os dois referidos maçons fossem uma só pessoa! O Irm.’. Barão Théodore Henry de Tschoudy, em 1766, aos quarenta e seis (46) anos de idade, publicou na França, uma obra denominada ‘L’Estoile Flamboyante’ (‘A Estrela Flamejante’, diríamos no idioma português). Ele faleceu em 1769. Mais tarde, entre 1781 e 1782, o Irm.’. Louis Guillemaisn de Saint-Victor, também na França, publicou a primeira edição de um catecismo intitulado ‘Recueil Precieux de la Maçonnerie Adonhiramite’ (Coleção Preciosa da Maçonaria Adonhiramita’, diríamos na idioma português, sem o ‘h’ intermediário consagrado pelo uso, no Brasil).”
E mais adiante:
“Na França, em 1837, o Irm.’. Jean-Marie Ragon (responsável por lamentáveis equívocos, alguns até arraigados em nossa Ordem!) publicou (infelizmente!) a sua ‘Orthodoxie Maçonique Suivie de la Maçonnerie Oculte’, (‘Ortodoxia Maçônica Seguida da Maçonaria Oculta, diríamos no idioma português), na qual atribuiu, de maneira errônea, a autoria da já mencionada ‘Recueil Precieux de la Maçonnerie Adonhiramite’ ao Irm.’. Barão Théodore Henry de Tschoudy, apesar de ter sido ela escrita (já vimos!) pelo Irm.’. Louis Guillemain de Saint-Victor.”


POR QUE ADONHIRAM E NÃO HIRAM?
Esta, bem pode ser a questão que mais tem provocado polêmicas, desde a criação do Rito.
Como a resposta está relacionada diretamente com a Bíblia, vejamos este excerto retirado do clássico do Irmão Joaquim Gervásio Figueiredo, “História da Maçonaria”, referente ao verbete “Rito Adonhiramita”, o qual diz assim:
“RITO ADONHIRAMITA. Criado em 1776 ou 1787 pelo barão de Tschoudy, relaciona seus emblemas com a construção do Templo de Salomão, mas cultua a memória de Adoniram ou Adoram, como tendo sido o seu arquiteto e a vítima da perfídia dos três maus Companheiros. Outros maçons não aceitam, porém, esta versão, mas atribuem-na a Hiram Abiff, e daí a se denominarem Hiramitas. Entretanto, é idêntica a doutrina de ambos, tanto nos altos graus como nos simbólicos. Por sua vez, a Bíblia não confirma nenhuma dessas versões, pois ali se relata que Adoniram foi um superintendente de trabalhadores forçados de Davi (II Sam. 20:24) e de Salomão (I Reis, 4:6), isto é, dos cananeus reduzidos à escravidão pelos israelitas sob o mando de Judá (Juízes 1:21-29,31; I. Reis 9:15, 20-22). Nesta qualidade, Adoniram dirigiu os 30.000 hebreus enviados ao Líbano para cortar madeira destinada à construção do seu Templo (I Reis, 5:14). Depois foi coletor de impostos de Reoboam (I Reis 12:18;e I Sam. 10:18), e no exercício desta função morreu lapidado pelos israelitas rebelados contra Reoboam (I Reis 12:18; Crô. 10:18). Ao passo que Hiram Abiff foi um hábil decorador. Sob cuja decoração se fizeram a decoração interna do templo e os seus utensílios de metal (Reis 7:3-45; Crôn. 2:13-14; 4:11-16), nada mencionando a Bíblia sobre sua morte, o que certamente não teria deixado de fazer, uma vez verificadas as graves circunstâncias descritas na lenda do terceiro grau; donde se conclui ser ela apenas simbólica. (…)


COMENTÁRIOS:
Como pudemos observar em primeira instância e em consonância com o que foi dito lá no começo, muitos são os autores que atribuem ao Barão de Tschoudy a criação do Rito Adoniramita, sendo que o Irmão Joaquim Gervásio de Figueiredo também assim o fez.
Mas, o objetivo agora é tentar esclarecer sobre o que até hoje tem sido motivo de confusões e que tem relação com os nomes Adonhiram e Hiram, o da lenda do 3º Grau. O Irm.’. Theobaldo Varoli Filho tem no importantes que remetem à Bíblia, às lendas e aos nomes que são utilizados na Maçonaria. Reproduzo na íntegra, a partir do titulo abaixo.


“TUBALCAIM – HIRÃO ABI – ADONONIRAM – A LENDA DE HIRÃO-ABI OU DO TERCEIRO GRAU, REVELADA AO APRENDIZ APENAS NO SEU SENTIDO EXOTÉRICO – A Maçonaria, cujos ensinamentos e exemplos repousam principalmente nas lendas bíblicas, relembra, nos seus rituais, TUBALCAIM, filho de Lameque e irmão de Noé e havido por hábil artista no manejo de metais (Gênesis, 4/19 a 22 e 5/28,29). No grau de mestre há, porém, uma lenda exclusivamente maçônica e exigida, por um dos ‘landmarks’, como condição de regularidade do simbolismo. Trata-se da lenda do suposto assassinato de Hirão Abi, numa estória-síntese construída pela Maçonaria com o propósito de inspirar e relembrar para sempre conhecimentos morais e filosóficos, inclusive o da impericibilidade e ressurreição, sob novos aspectos, das ‘idéias-mestras e básicas’ e da ‘Essência’. A lenda constitui, também a síntese de outras lendas que se contaram através dos tempos, como, por exemplo, a da morte de Osíris. Cumpre notar que a Maçonaria jamais esconde o fato de nunca ter ocorrido o assassinato de Hiram, pois admite apenas que este tenha sido um dos chefes construtores (arquitetos) e artífice metalista enviado por Hirão, rei de Tiro, a Salomão (V. Crônicas ou Paralipômenos, 2º, 2/3 e 14).
A lenda maçônica do suposto assassinato de Hirão Abi não é de todo secreta, pois é referida como exigência primordial, nas Constituições e estatutos maçônicos. Observe-se que a Maçonaria dita universal e regular, por um dos lindeiros, não admite que a figura de Hirão Abi seja substituída por qualquer outra, nem mesma pela de Adonirão (Adon-Hiram), ecônomo construtor-dirigente e chefe que comandou as levas de obreiros que foram buscar os cedros e ciprestes do Líbano e outros materiais destinados ao Templo de Salomão (Reis, 1º, 5/13). Por isso e por outros motivos, o Rito Adonhiramita, criado pelo Barão de Tschoudy, em 1767, deixou de ser devidamente reconhecido pela Maçonaria Internacional, embora a sua lenda de Adon-Hiram fosse a mesma de Hiram-Abi, tendo havido apenas a mudança do herói.” (Grifo meu)


COMENTÁRIOS:
Não sei se, por terem seus livros sido escritos há bastante tempo, é que tanto o Irmão Varoli, como o Irmão Figueiredo, como acabamos de ler anteriormente, atribuem a fundação do Rito Adoniramita, ao Barão de Tschoudy…
Escritores mais recentes, porém, dizem que isso tudo foi um erro de Ragon e que confrontadas algumas datas, por exemplo, a do ano em que o Rito teria vindo à luz e o ano da morte do Barão, esta última teria transcorrido 20 anos após.
Creio que a resposta ou as respostas para essa questão, que envolve vários pontos de vista diferentes ou várias interpretações é mesmo o amálgama de algumas delas, como estas que darão sequência, todas provindas de sábios Irmãos, portanto, como conhecimento nunca é demais, saibamos aproveitar o que cada uma delas tem a dizer:
“O personagem Adhoniram, ou Adoram, ou Hadoram, citado em Reis I, Samuel II e Crônicas II, era encarregado dos impostos e prepostos às corvéias. Preposto é o auxiliar encarregado de certos negócios e que age em nome e por conta de um patrão, um preponente. Corvéia era o trabalho ou serviço gratuito – verdadeiro trabalho escravo, portanto – que as pessoas tinham que prestar ao rei (também presente no feudalismo europeu). Adonhiram, portanto, era o contratante dessa atividade servil, como preposto de Salomão e, depois Roboão. Ele foi apedrejado, até a morte, pelos israelitas das dez tribos, que, a partir desse dia, foram infiéis à casa de Davi, como consta em Reis I, 12-18 e 19 (a referência é ao cisma de 920 a.C., quando os hebreus dividiram-se em dois Estados Israel e Judá).A apresentação da edição francesa do ‘Recueil Précieux de la Maçonnerie Adhoniramite’, todavia, situa que Adoniram é nome composto do hebraico ‘Adon’ e ‘Hiram’, de acordo, inclusive, com o próprio autor, Louis Guillemain de Saint-Victor. A lenda do 4º Grau, inclusive confirma isso. (Aqui há mais texto, mas ficaremos por aqui para não incidir em ensinamentos de outros graus)” (Castellani, págs.153 e 154, 2001)
“(…) Nas controvérsias que surgiram no século XVIII sobre quem teria sido o construtor do Templo de Salomão, todos admitiram que o construtor fosse Hiram, mas uma parte o chamou Hiram Abi e a outra, embora admitindo que o nome original fosse Hiram, supôs que em consequência da perícia desenvolvida na construção do Templo, ele teria recebido o honroso prefixo de Adon, significando senhor, ou Mestre, donde o seu nome de Adonhiram. Havia, porém, outro Adoniram, filho de Abda a quem Salomão confiara a Superintendência dos operários que preparavam o material para a construção do Templo. Os ritualistas franceses, que não eram profundos hebraístas, nem versados em história bíblica, confundiram os dois personagens e perderam qualquer distinção entre Hiram, o construtor vindo de Tiro, e Adoniram, o oficial da corte do Rei Salomão.” (Grifo meu) (Aslan, pág. 1177, 2012)
“(…) No rito Adoniramita, pouco usado no Brasil, Adoniram é tido como sendo o grande artífice e não Hiram Abiff. Muitos autores ‘fundem’ os dois personagens em um só. No entanto, deve-se observar que nenhum israelita teve permissão para tomar parte na edificação do Grande Templo. É mais provável que Adoniram não tenha participado na coleta do material, mas que, apenas, tenha sido um dos oficias de Salomão, isso antes do ano 480 a.C., calculado o início do dia em que os Israelitas saíram do Egito Por outro lado, não seria admissível ‘mão-de-obra’ escrava na edificação do Templo. ‘Mãos puras’ deviam erguer a obra, informando a tradição que os operários usaram luvas e aventais brancos, de onde surgiu a tradição maçônica!” (Da Camino, págs.22 e23, 2006)


CONTINUA
*** No próximo número serão desenvolvidos outros tópicos referentes ao Rito Adoniramita, citando como exemplos:
_ Quantos são e quais são, os graus do Rito Adoniramita?
_ A história do Rito Adoniramita no Brasil.
_ O terceiro Landmark: ainda a questão Adonhiram e Hiram.
_ Particularidades da Liturgia e da Ritualística…
Referências Bibliográficas:
Internet:
“A Origem do Rito Adonhiramita” – Trabalho do Irmão Fuad Sayar – Disponível em: mictmr.blogspot.com.br/2005/12/origem-do-rito-adonhiramita.html
Revistas:
A TROLHA, nº 241, Novembro/2006 – “O Rito Adonhiramita” – Trabalho da autoria de diversos Irmãos.
O PRUMO, nº 104, Setembro/Outubro 1995 – “Coleção Preciosa da Maçonaria Adonhiramita”- Artigo de autoria do Irmão Lúcio Nelson Martins-Dupuy
Livros:
ASLAN, Nicola. “Grande Dicionário Enciclopédico de Maçonaria e Simbologia” Volume 4 – 3ª Edição – Editora Maçônica “A Trolha” Ltda. 2012
CARVALHO, Assis. “Companheiro Maçom” – Cadernos de Estudos Maçônicos nº 17 – Editora Maçônica “A Trolha” Ltda. 2ª Edição – 1996
CASTELLANI, José. “Fragmentos da Pedra Bruta” – Volume 2 – Editora Maçônic a A Trolha” Ltda.2001
DA CAMINO, Rizzardo. “Dicionário Maçônico” – Madras Editora Ltda. 2006
FIGUEIREDO, Joaquim Gervásio de. “Dicionário de Maçonaria” – Editora Pensamento
GIRARDI, João Ivo. “Do Meio-Dia à Meia-Noite – Vade-Mécum Maçônico” – Nova Letra Gráfica e Editora Ltda. 2ª Edição – 2008
O PRUMO 1970-2010 – COLETÂNEA DE ARTIGOS – GRAU 1 -APRENDIZ VOLUME 1 – “O Rito Adonhiramita e sua história” – Trabalho de autoria do Irmão Feliciano (Edison Carlos Ortiga)
PIRES, Joaquim da Silva. “Rituais Maçônicos Brasileiros”- Editora Maçônica “A Trolha” Ltda. – 1ª Edição – 1996.
VAROLI FILHO, THEOBALDO. “Curso de Maçonaria Simbólica” – 1º Tomo – (Aprendiz) – 2ª Edição Editora A Gazeta Maçônica – 1977

 

Ir.·. José Ronaldo Viega Alves*