Portal da Fraternidade Maçônica

Oh, Quão bom e Quão suave é que os Irmãos vivam em união! … (Salmo 133)

EU SOU AQUELA MULHER – HOMENAGEM A MULHER DA MAÇONARIA – Artigo n° 264 – Barbosa Nunes

Muito honrado por encontrar-me em exercício do Grão-Mestrado Geral do Grande Oriente do Brasil e ter o privilégio de, neste artigo, expressar o reconhecimento que tenho pelas mulheres. Mulher mãe, mulher esposa, mulher lutadora, Mulher da Maçonaria.

As Fraternidades Femininas do Grande Oriente do Brasil são constituídas por aquelas que classifico como forças vivas de nossa instituição. Homenageio-as na figura da dedicada Flora Rios Mendes, Presidente da Fraternidade Feminina Nacional Cruzeiro do Sul, e através dela, reverencio as presidentes estaduais e de lojas maçônicas. Em sentido global todas as esposas de maçons, que identificamos como cunhadas.

Sou gratificado e em muito, na homenagem que lhes presto pelo Dia Internacional da Mulher – 8 de março. Este meu gesto só poderia ser materializado através de outra mulher, guerreira, doceira, sofrida, interiorana, da terra. Uma das maiores poetisas dos últimos tempos em nosso país. Ofereço-lhes “Mulheres da maçonaria”, esta franqueza de texto intitulado “Eu sou aquela mulher”. Poucos poemas sintetizam tão bem, a luta feminina e da terceira idade, em defesa da vida e da solidariedade como este, mensagem da incansável que foi, pelas palavras até os 95 anos. Cora Coralina. Mulher que se descobriu poeta bem velhinha, depois de uma vida de luta inclusive, com um casamento que ela carregou corajosamente e, após a morte do marido, conseguiu se ver em sua enorme e verdadeira dimensão, como mulher e como poetisa.

“Eu sou aquela mulher a quem o tempo muito ensinou. Ensinou a amar a vida. Não desistir da luta. Recomeçar na derrota. Renunciar a palavras e pensamentos negativos. Acreditar nos valores humanos. Ser otimista.

Creio numa força imanente que vai ligando a família humana numa corrente luminosa da fraternidade universal. Creio na solidariedade humana. Creio na superação dos erros e angústias do presente.

Acredito nos moços. Exalto sua confiança, generosidade e idealismo. Creio nos milagres da ciência e na descoberta de uma profilaxia futura dos erros e violências do presente. Aprendi que mais vale lutar do que recolher dinheiro fácil. Antes acreditar do que duvidar.”

Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, nasceu na Cidade de Goiás em 20 de agosto de 1889 (dia do maçom) e faleceu em Goiânia em 10 de abril de 1985. Em 1903, já escrevia poemas. Em 1908, criou o jornal de poemas femininos chamado “A Rosa”. Em 1910, seu primeiro conto “Tragédia na roça”, já com o pseudônimo Cora Coralina. Foi proibida pelo seu marido de integrar-se à Semana de Arte Moderna, a convite de Monteiro Lobato, em 1922. Em 1934, torna-se vendedora de livros da Editora José Olímpio, que em 1965, lança seu primeiro livro “O Poema dos Becos de Goiás e Estórias Mais”.

Em 1980, Carlos Drummond de Andrade, após ler escritos da autora, manda-lhe uma carta elogiando seu trabalho, que ao ser divulgada, desperta o interesse do público leitor e a faz ficar conhecida em todo Brasil. Assim disse Drummond:

“Minha querida amiga Cora Coralina: Seu “Vintém de Cobre” (poema de Cora) é, para mim, moeda de ouro, e de um ouro que não sofre as oscilações do mercado. É poesia das mais diretas e comunicativas que já tenho lido e amado. Que riqueza de experiência humana, que sensibilidade especial e que lirismo identificado com as fontes da vida! Aninha, hoje não nos pertence. É um patrimônio de nós todos, que nascemos no Brasil e amamos a poesia.”

“Quem é você?” e “Todas as vidas”, poemas de Cora “Sou mulher como outra qualquer. Venho do século passado e trago comigo todas as idades. Nasci numa rebaixa de serra. Entre serras e morros. Longe de todos os lugares. Numa cidade de onde levaram o ouro e deixaram as pedras”.

“Sou mais doceira e cozinheira do que escritora, sendo a culinária a mais nobre de todas as artes: objetiva, concreta, jamais abstrata e que está ligada à vida e à saúde humana”.

“Vive dentro de mim, uma cabocla velha, de mau olhado, acocorada ao pé do borralho, olhando para o fogo. Vive dentro de mim a mulher do povo. Bem proletária. Bem linguaruda, desabusada, sem preconceitos, de casca grossa, de chinelinha e filharada.”

“Vive dentro de mim, a mulher madrugadeira. Analfabeta, de pé no chão. Bem parideira. Bem criadeira. Fingindo alegre seu triste fado. Todas vidas dentro de mim”

Destemida e defensora da mulher que para não passar fome, entrega o seu corpo, Cora assim abriu o seu coração em “Mulher da vida”:

“Minha irmã de todos os tempos. De todos os povos. De todas as latitudes. Ela vem do fundo imemorial das idades e carrega a carga pesada dos mais torpes sinônimos e apelidos: Mulher da zona, Mulher da rua, Mulher perdida, Mulher atoa, Mulher da vida. MINHA IRMÃ.”

Afirmo-lhes cunhadas das Fraternidades Femininas do Grande Oriente do Brasil, é com emoção que produzi este artigo em suas homenagens e o concluo com uma frase basilar de Cora Coralina, convidando-as para aprofundar e conhecer esta que foi uma grande mulher e que entre suas dezenas de frases, separei esta:

“Não sei se a vida é curta ou longa demais para nós, mas sei que nada do que vivemos tem sentido se não tocarmos o coração das pessoas”.

 

Barbosa Nunes, advogado, ex-radialista, membro da AGI, delegado de polícia aposentado, professor e maçom do Grande Oriente do Brasil - barbosanunes@terra.com.br.